DOIS VETERANOS DE ALÉM MAR

HOMENAGEM AOS FUZILEIROS DO DFE Nº 12 - 1970/71

OPERAÇÕES CATANADA-COCHA - CUCO/SANOU

Resumo da tomada da Base de Cumbamory

A Operação com o nome de código "Catanada"

   Realizou-se em 3 Abril de 1970, em Cumbamory no Senegal. Esta operação efetuou-se sete dias depois da chegada à Guiné dos restantes camaradas que tinham terminado o Curso de Fuzileiros Especiais. O que para os mais velhos parecia uma operação de reconhecimento de baixo risco, para encontrar uma Base de localização desconhecida veio a tornar-se num dos recontros de mais difícil resolução - O Destacamento enfrentou as Forças do PAIGC, em maior número de homens e material.

   O PAIGC, realizava nesse dia uma reunião de chefes da zona norte do Partido, e. foram surpreendidos por uma escaramuça entre elementos do PAIGC e de um nosso grupo de reconhecimento, junto à Base de Cumbamory. Por este motivo, os homens do PAIGC, combateram arduamente, numa defesa a todo o custo para proteger a retirada dos seus Chefes. Segundo relatórios conhecidos do COP 3, indicavam que o IN tinha sofrido várias baixas entre feridos e mortos. "Nunca tão poucos conseguiram suster tal impetuosidade do Inimigos e causar tantos danos".

   Dias depois, em 12 de Abril, estava em marcha a importante Operação com o nome de código "Cocha" à mesma Base. Aproveitando o conhecimento e localização na operação anterior, o DFE 12, assaltou e neutralizou os defensores da Base, dando origem à sua debandada, conseguindo assim o domínio efectivo da mesma durante várias horas.

   O Destacamento resistiu a vários contra-ataques do IN, e com o apoio da Força Aérea, efetuou-se a evacuação de 10 toneladas de armamento, material de saúde e equipamento diverso. Terminando a operação com a destruição de Paióis/valas no subsolo, e a retirada do Destacamento, seguida de bombardeamento efectuado pela Força Aérea em toda a zona de Cumbamory. O conjunto de estas duas operações, desarticularam a estrutura do IN naquela área, provocando grande instabilidade nas fileiras do PAIGC e, obrigando-o a retirar mais profundamente para o interior do território do Senegal.

   Esta experiência em combate, fortaleceu o Espírito de Grupo e de autoconfiança, tornando o DFE 12, numa das Unidades de Fuzileiros com mais êxitos alcançados em combate e temida pelo inimigo.

Operação Cuco

   Esta operação realizou-se no dia 23/24 de Setembro. A ordem de operações determinava que se realizasse nova incursão no interior do Senegal, a eventual Base do PAIGC, que se encontrava algures junto ou povoado senegalês de Sanou. Este golpe de mão veio no seguimento de dois golpes de mão, bem-sucedidos, no espaço de duas semanas, executados pela nossa unidade à base de Cumbamory, situada no Senegal, em Abril deste mesmo ano, tendo sido «batizada» com o nome de código, Cuco.

   O DFE 12 seguiu de noite em direcção a Bigene e depois para Barro e daqui iniciou a progressão para o interior do Senegal, algures entre os marcos fronteiriços 131 e 132. O destacamento entrou por Bucaur, na direcção da base de Sanou, depois de ter transporto uma selva exuberante e uma bolanha alagadiça.

   A manhã acabava de nascer. Os primeiros homens da frente da unidade aproximaram-se e depararam com uma sentinela que estava a dormir. Este ao ouvir um ruido deu um salto, agarrou na sua arma e começou a correr. Deste modo, obrigou os primeiros homens da secção da frente a entrar na mesma correria, para evitar que o homem alertasse os seus companheiros, que ainda dormiam. Foi uma corrida que fragmentou o destacamento: A primeira secção entrou repentinamente na base do PAIGC, desencadeando de imediato o combate, misturavam-se os tiros de espingarda, com bazucadas e lançamento de granadas. Depois houve o diminuir do tiroteio, que indiciava a retirada dos guerrilheiros.

   Precisamente nesse espaço de tempo, houve um episódio interessante o nosso guia, balanta chamado Bacar Camará, chefe da tabanca em Bigene, assim que reparou que alguns dos elementos da população de Sanou eram de sua Família, que estavam refugiados no Senegal, ele começou a correr na sua direcção, aos gritos chamando-os pelos nomes. Este facto causou alguma desorientação supondo que ele iria desertar. Mas felizmente alguns elementos pararam ao chamamento de Bacar, de súbito, ele voltou de novo, caminhando na nossa direcção, com um grupo de populares atrás de si, todo feliz e assinalava que eram seus familiares, que tinham fugido de Bigene e tabancas vizinhas no início da guerra.

   Depois de os guerrilheiros retirarem, vimos três mortos confirmados IN uniformizados e vestígios de sangue, provavelmente de feridos que foram levados na retirada. O que foi notável nesta acção é que eles retiraram com o essencial do armamento. Na revista ao perímetro da base mais ao menos rápida, pois tínhamos de sair da região, porque não tínhamos qualquer protecção de apoio aéreo, e assim estaríamos sujeitos a retaliações do inimigo.

   Na revista à base, encontrámos uma autêntica base logística, com centena de uniformes, mochilas, perfeitamente acomodados, algumas granadas, munições de armas ligeiras, bem como livros escolares e documentos diversos.

   Destruímos as moranças e o material que não poderíamos transportar. Saindo rapidamente da região, rumando em direcção a Bigene, e depois mais tarde fomos transportados para Ganturé.

   Foi um golpe de mão, eficaz, rápido e arrasador. Trouxe efeitos práticos. Barro e Bigene deixaram de ser atacados durante alguns meses. Na área de actuação do COP 3, fomos a unidade com mais resultados conseguidos e com maior eficácia de combate, com menos baixas humanas.

   No relatório do Comando-Chefe - Repartições de Operações registava-se que o IN teve cinco baixas e quatro feridos. Da parte do DFE 12 não houve qualquer baixa nem feridos.

   O major que então comandava o COP 3 propôs ao general comandante-chefe que o DFE 12 fosse louvado.

   A Repartição de operações do comando-chefe emitiu, então o seguinte louvor que o general Spínola deu ao DFE 12.

«Sua excelência, o general comandante-chefe encarrega-me de manifestar a V. Exª o seu apreço pelo esforço operacional que tem vindo a ser desenvolvido por esse DFE, e, em especial, no que se refere à acção CUCO.»

   Outras fontes que podem ser consultados:

Resumo de operações e acções realizadas pelo DFE 12 - 1970-1971.

Arquivo Histórico Militar

Ordem à Unidade (DFE 12) de 15 Setembro de 1970

Ordem de Comando Nº50 de 17 Novembro do CDMGUINÉ de 1970 - OP2/242/18 Dezembro1970

Diário de Notícias de 14 Fevereiro 2010

Diário de Notícias, 03 de Abril de 2010


DESTACAMENTO Nº 2 - ANGOLA 

1965 A 1967

História de Missões do DFE - Nº 2 - 1965/67

   As missões dos fuzileiros em operações no norte de Angola eram de diversa ordem: patrulhas de reconhecimento, de combate e outras de apoio a forças do exército que se encontravam isoladas, sendo as mais frequentes na travessia de rios caudalosos de material logístico e combatentes.

   Depois da informação da missão e das ordens recebidas ( armamento, munições, granadas, armas pesadas), o comandante reunia o Destacamento, para a realização um briefing, onde todos ficariam a saber as características do terreno, a quadricula onde se realizava a operação, objectivo, e o conhecimento da força inimiga que podíamos enfrentar, hora de embarque e previsão de duração (dias) da operação.

   A coluna auto-transportado partia de Luanda e seguia mais ou menos segura pelo alcatrão até ao Caxito, chegávamos rapidamente à Fazenda Tentativa, com imensas plantações da cana-de-açúcar, e ao longe avistava-se as primeiras elevações por onde iríamos serpentear.

   Da vila do Caxito até a próxima povoação de Ucua, a deslocação foi tranquila, a partir daqui era o inferno. A rota alterava-se e entravamos em trilhos de terra batida, covas na picada, o sobe e desce, com o pó a entranhar-se na garganta e por todo o corpo, no meio o ruído ensurdecedor dos motores das viaturas, o tremelicar de vez em quando tínhamos de saltar das viaturas, porque havia árvores derrubadas no caminho, logo cheirava a perigo, ou uma possível emboscada. Com o coração aos saltos e o suor em bica, com o pensamento na morte em cada passo, mas, também era verdade que rapidamente esse pensamento desaparecia, quando era preciso organizar a protecção para que a viatura da frente pudesse com o guincho e a nossa ajuda retirar o tronco, antes porem, tínhamos que verificar se o mesmo estava armadilhado, eram penosos minutos que passávamos, depois era o uff ... tudo bem. Em seguida, ouvia-se a voz, - "embarca, liguem os motores, avança", voltava o deslizar, saltitante e doloroso, do cu a bater no banco de madeira, morro atrás de morro, descidas, subidas, buraco atrás de buraco, com o corpo todo dorido, e com o estômago à volta, enfim, foi assim que avistamos o quartel do Exército.

   Na primeira vez, nas poucas horas que descansamos naquela unidade do Exército, o insólito aconteceu. Os camaradas do Exército não acreditavam que os homens de camuflado e boina azul-ferrete fossem da Marinha. E mais atónitos se mostraram quando lhe dissemos que íamos fazer a operação com eles. Os soldados só acreditaram quando lhes mostramos o cinto branco que trazíamos nas calças camufladas e o símbolo da Armada, só assim se tornaram crentes que éramos marinheiros. Claro que muitos deles, naquela altura nem sequer sabiam que havia unidades de Fuzileiros.

   Depois de este insólito acontecimento, fomos dormir no refeitório espalhados pelo chão e por cima das mesas. Estávamos de tal maneira cansados, que dormir de pé, sentado ou deitado era secundário, o nosso desejo era apenas fechar os olhos e descansar.

   A alvorada foi bastante cedo, tomamos o café e comemos qualquer coisa, foi ainda no escuro que nos preparamos para a missão e iniciamos a progressão em direcção ao rio, tínhamos como objectivo de manter as duas margens seguras e com protecção suficiente para que as companhias pudessem transpor o curso de água sem problemas.

   O comandante António Ponte, depois de escolher e ocupar o lugar aonde iríamos actuar, determinou que organizássemos um esquema defensivo, uma vez que esperava que se efectuasse a passagem do rio, daí a dois ou três dias.

   O terceiro oficial, com mais uma esquadra e um especialista do exército, um furriel de minas e armadilhas, iniciaram a montagem de armadilhas pelo perímetro defensivo. De súbito, ouviu-se uma explosão, gritos por todo o lado, uma das granadas foi accionada, provocando feridos, o furriel sem mão, o tenente todo ensanguentado, aparece o enfermeiro que presta os primeiros socorros e solicita-se uma evacuação imediata de helicóptero.

   O tempo não era para reflexões. Envia-se um grupo de homens para localizar uma zona para o aparelho aterrar, começa a chover diluvianamente, tínhamos que transportar os feridos para uma linha de altura, um pequeno planalto, mas a subida era íngreme, escorrega aqui, escorrega acolá, gemidos dos feridos, enfim, um tormento, mas, conseguimos fazer a evacuação com sucesso.

   Dias depois, iniciamos a passagem das companhias, contudo não foi fácil, esbarrou-se com águas caudalosas, que só nos trouxe mais dificuldades, cansaço acrescidos, e, a missão prolongou-se por mais três dias, dissemos mal da vida, tudo estava contra nós, a intempérie, os mosquitos e a picada intransitável. Para saciar a fome tivemos que desenterrar as latas e algum pão que tínhamos enterrado da ração de combate que tinha sobrado, o que veio a tornar-se um manjar dos deuses.

   Depois, foi o terminar com sucesso a missão, conseguimos recuperar os camaradas do exército, e receber as palavras reconfortantes deles, que disseram - "sem vocês não teríamos conseguido".

   Seguiu-se o regresso a Luanda e rapidamente esquecemos o que passamos. Outras missões se seguiriam na comissão de este Destacamento de Fuzileiros, que ficarão para ser contadas em novas oportunidades.

"FUZILEIRO UMA VEZ FUZILEIRO PARA SEMPRE"


DESTACAMENTO Nº 12 - GUINÉ

1967 - 1969

História do DFE 12 - 1967-1969

   Esta é a minha primeira História sobre este Destacamento 12, o qual tive o orgulho e honra de pertencer e descreve a 1º operação realizada na Guiné.

   O PTO (Preparação Técnica Operacional) do Destacamento, realizou-se na área do Cumeré, em Outubro de 1967. Este treino nos fuzileiros era dado geralmente pela Unidade que estava a terminar a comissão. Todos os Destacamentos de Fuzileiros efectuavam esta preparação antes de entrar em combate.

   A Unidade embarcava nas lanchas e navegava pelo rio Geba, vindo a desembarcar a montante naquela zona. A preparação baseava-se na adaptação ao tipo de rios e riachos, dos quais tínhamos que navegar e fazer a sua exploração. O lodo era uma imagem de marca para quem percorria os trilhos junto aos cursos ribeirinhos. Caminhar naquela lama viscosa, mole e peganhenta e depois atravessar o tarrafe, (vegetação tipo mangal todo intricado, que sobrevivia no movimento alagadiço das marés), aprender a deslocarmos na bolanha, principalmente a ter o cuidado de seguir sempre o rasto do homem da frente, pois um movimento impreciso podia dar origem a acionar uma mina, eram de facto, estes cuidados e procedimentos que nunca podíamos vir a descurar.

   Valeu a pena este treino duro e constante durante um mês, tornou-nos mais fortes e confiantes, para aquilo que iríamos encontrar no futuro nas missões de combate.

   A Ordem Operacional, chegou no mês de Dezembro, perto do Natal, fomos chamados para uma reunião, onde nos deram a informação que teríamos de preparar o material; armas, munições, ração de combate e estarmos prontos para a hora de embarque. Depois de completar estas tarefas, formamos e foi passada a revista. De seguida, fomos transportados para o cais do Pigidjguiti, onde embarcarmos numa LFG (Lancha de Fiscalização Grande), zarpando em direcção aos baixios do rio Tombali. Neste local, já nos esperavam as LDM (lanchas de desembarque médias) e uma secção reforçada do DFE 7, que nos iria apoiar no desembarque. Entretanto foi feito um briefing rápido ainda a bordo, informando-nos do objectivo da missão e o inimigo que poderíamos enfrentar, foi-nos servido uma refeição quente e os votos de boa sorte dados pela marinhagem, e de seguida passamos para as lanchas.

   Duas lanchas com seis botes de borracha cada uma, foram subindo o rio até nos aproximarmos do local do desembarque, foi ordenado em silencio a transferência dos homens para os botes, os quais se foram aproximando o mais possível da margem até saltamos para o lodo, ficando os nossos corpos quase todos atolados até á cintura, depois foi o sentir a sensação de estarmos presos e ter de colocar em prática os nossos conhecimentos - modelar o corpo à lama, desprendermos do buraco e gatinhar até atingirmos a margem.

   Os primeiros a chegar montaram segurança, os nossos camaradas do DFE 7, que estavam nos botes e nos davam cobertura, quando nos viram em segurança, aprontaram-se para partir, despediram-se de nós, acenando desejando boa sorte e desaparecendo no rio em direcção às suas lanchas.

   A progressão iniciou-se com o apelo do comandante; ao "passa palavra", ao silêncio, ao cuidado na marcha, progredir em coluna por um, com a distância de segurança entre os homens, com sectores de observação e de tiro bem definidos para poder reagir a alguma emboscada. Depois de passarmos a bolanha, entramos num palmeiral e aproveitamos para seguir pela orla do mesmo, andando cautelosamente, fazendo algumas paragens e retomando a caminhada, chafurdando numa terra que não era suficientemente firme, até que de súbito - ouvimos dois disparos a cerca de cem metros à frente da coluna. Rapidamente abrigamos ... tínhamos sido detectados! Aguardamos alguns minutos e chega um novo "passa palavra", a partir daqueles momentos iríamos progredir com o máximo cuidado, silencio absoluto e olhos bem abertos! Entretanto, chega um aviso, "clareira em frente, vamos contornar pela orla da mata". O homem da frente faz sinal de abrigar, silêncio total, nem se ouvia os zumbidos dos mosquitos ... algo estava prestes acontecer! E, de repente, surgem explosões, rajadas, estilhaços de granada a zumbirem por cima de nós, houve alguma confusão até começarmos a reagir, mas, em segundos, ouve-se as rajadas das nossas metralhadoras e o grito tradicional dos fuzileiros, "vamos a eles". Em seguida, iniciamos o envolvimento com a técnica de fogo e movimento, desarticulando assim, o grupo inimigo que se retirou desordenadamente.

   Mais tarde, chega a informação que tínhamos tido um morto e dois feridos graves, o que nos deixou bastante constrangidos e logo no início da nossa primeira missão. No entanto tivemos de continuar recebendo ordem para montarmos um perímetro defensivo para dar cobertura e segurança ao helicóptero que iria efectuar a evacuação do camarada morto e os feridos.    Cerca de meia hora depois, chega o helicóptero de evacuação, escoltado pelo Heli canhão, que rapidamente aterra e levanta voo em direcção a Bissau.

   Entretanto, o Heli-canhão ainda se manteve a dar cobertura ao Destacamento até à altura de prosseguimos a marcha, que foi realizada com cuidados redobrados, progredindo muito silenciosamente. Ao longo do caminho encontramos um trilho, caminhando ao lado do mesmo descobrimos um acampamento e, depois de longa observação concluímos que tinha sido abandonado. Montamos segurança e efectuamos a busca de material, encontrando recipientes e alguns mantimentos e, por fim, destruímos as palhotas e abandonamos o local. Continuamos ao longo do dia montando emboscadas junto a picadas, mas sem resultado, com a noite a aproximar, rumamos em direcção à bolanha para passarmos a noite, evitando assim, mais alguns reencontros indesejáveis.

   De manhã, ouvimos ruídos e preparamo-nos para um contacto de fogo, mas, era apenas alguns porcos do mato.

   Estabelecidos os contactos com o centro de comando, recebemos ordens para dirigimos em direcção ao rio.

   No entanto, ao fazer a nossa progressão íamos montando emboscadas sucessivas, utilizando o método que, enquanto progredíamos, o grupo da frente abrigava, o grupo da rectaguarda passava e assim consecutivamente, se a caso o IN nos seguisse, cairia numa emboscada. E, foi deste modo, que chegamos ao rio, sem mais contactos com o inimigo.

   Montamos segurança e colocamos a tela alaranjada no tarrafe, assinalando o local do reembarque, contactando depois via rádio as lanchas, para se aproximarem do local escolhido.

   As lanchas que nos esperavam, com a maré na enchente, tinham todas as condições para abicar ao tarrafe. E foi o que aconteceu, reembarcamos sem qualquer percalço e fomos transportados em segurança para o largo, onde se encontrava a LFG, que nos levou para Bissau.

CONCLUSÕES:

   O Inimigo devia ter abandonado a zona, até porque havia indícios de sangue, na zona onde sofremos a emboscada.

   Foi a nossa primeira operação na zona da Pobreza no Tombali, que deixou marcas na memória de todos os homens de este Destacamento - até aos dias de hoje, para aqueles que ainda vivem.

   Aquele Natal foi marcado pela guerra e pelas baixas. Serviu para criar o espírito de corpo, unir e criar laços de amizade e camaradagem para Sempre! 


O Fim do Império Português

ANGOLA 1974- 1975

Entrega do Posto da Pedra do Feitiço e seus dramas

   A nossa companhia recebeu a missão de render a unidade que se encontrava no rio Zaire, um dos maiores rios do mundo, o segundo de toda a África, maior que o Zaire, só o Nilo.

   Na foz do rio, a algumas milhas da costa, já se notava a diferença da coloração das águas e a presença de muitas lianas, vegetação trazida pelo volume da corrente que chegava a ter uma força de 5 nós.

   Quando entrámos na foz rio e o começamos a subir, reparávamos como aquele rio era majestoso e imponente, na sua largura chegava a ter um quilómetro e meio, no chamado baixo Zaire, e no seu comprimento cerca cento e cinquenta quilómetros entre a foz e o último ponto mais a norte, a localidade de Noqui.

   O rio dividia-se em duas zonas: o baixo Zaire, a zona das planuras, a jusante do Posto do Puelo, e a montante, o alto Zaire, zona de altas montanhas onde o rio corria a grande velocidade e composto de muitos remoinhos, que causavam grandes desníveis de água, da sua base até ao olho sugador do mesmo. Recordo como os nossos botes tinham dificuldade em navegar por eles, pois, tinham-mos de nos segurar bem porque toda a estrutura do bote estremecia e o motor guinava, dificultando a sua condução. Nos primeiros dias foi assustador, mas depois, todo o receio se desvaneceu com a prática diária adquirida, principalmente nas patrulhas diurnas.

   O rio Zaire era dividido por um canal internacional, onde passavam navios de várias nacionalidades, que faziam a ligação à cidade de Matadi na República do Zaire, e deste modo, estabelecia também uma fronteira entre os dois Países.

   A nossa margem era guarnecida por cinco Postos de Fuzileiros: Quissanga, Pedra do Feitiço, nas zonas das planuras e, mais três, na zona montanhosa do alto Zaire, Puelo, Macala e Tridente.

   Os Postos eram construídos em madeira e tinham uma guarnição de (25) homens, (1) oficial, (2) sargentos e (22) praças.

   Para esta quarta comissão, fui desafiado por alguns camaradas de outras comissões para juntamo-nos de novo, mas desta vez para uma missão muito especial: integrar uma companhia que tinha como missão - a entrega dos postos navais que se situavam a norte de Angola, e também, de ajudar na formação das novas Forças Armadas de Angola, proveniente da junção dos combatentes dos partidos de libertação.

   Confesso que fiquei empolgado com esta missão, respondi logo que sim, era algo que nunca tinha ousado pensar, ia finalmente saber como eles trabalhavam e o que realmente valiam, era uma experiência nova!

   Entretanto, decorreu um mês nos preparativos antes de embarcámos para Angola, confesso que estava expectante em voltar à minha querida Angola, e ver de novo a bela cidade de Luanda, onde passei tempos maravilhosos na minha primeira comissão 65/67 ... mas, Luanda já não era a mesma!

   Passadas duas semanas, a CF 12, foi transportada para o rio Zaire, para render os Fuzileiros da CF4, que se encontrava em Santo António do Zaire e, iam regressar à Metrópole.

   O nosso destino seria o Posto da Pedra do Feitiço, o único ainda guarnecido, estava instalado num pequeno morro de uma pedra lisa, visto do rio observa-se uma enorme Pedra altaneira e as casas de pré-fabricado em madeira, (embora já tivesse recebido algumas modificações nos edifícios passando para a construção em cimento), com bananeiras e vária vegetação à sua volta. Sem dúvida, sempre foi o Posto com melhores condições, as suas instalações estavam muito bem conservadas, junto a ele, encontrava-se o aldeamento com o mesmo nome. A partir deste ponto começava o chamado baixo Zaire.

   A nossa missão tinha como objectivo principal manter a nossa presença como potência administrante e militar portuguesa. E uma das nossas missões era patrulhar, (em botes de borracha e de fibra de alumínio), para montante do rio, o chamado alto Zaire, a zona montanhosa dos antigos Postos do Puelo, Macala e Tridente, onde o rio estreitava e corria veloz. A nossa presença era constante, para mostrar que ainda lá estávamos e, controlávamos o rio, perante o vizinho, a República do Zaire.

   Numa bela tarde aconteceu um episódio estranho, oiço uns gritos, uns passos apressados de uma jovem mulher com o seu filho ainda de meses nos braços a pedir ajuda, perguntei o que se passava para tanto pânico e ela pedia aflita - "Sor enfermeiro, Sor enfermeiro", rapidamente encaminhei-a para a enfermaria onde foi prontamente atendida, O sargento enfermeiro verificou que era um caso grave, perguntou-lhe como tinha acontecido o acidente, ela explicou que estava a trabalhar, e, como era costumo das mulheres da aldeia, tinha o filho às costas enrolado nos panos até à cintura, quando passou por debaixo de um coqueiro, desprendeu-se um coco, tendo atingido a cabeça da criança, originando uma fractura, e por isso era necessário a evacuação urgente para o hospital de Santo António do Zaire.

   O Comandante mandou preparar os botes que tinham regressado de uma patrulha, comunicando em seguida para o Comando Naval de Santo António do Zaire, informando o sucedido e, que ia enviar dois botes transportando a criança para o hospital da cidade.

   Os botes foram preparados, e vários voluntários se disponibilizaram para esta missão, estava em risco uma vida humana, para nós não nos interessava quem era - interessava sim, salvar uma criança.

   Apesar de um dos motores estar com alguma dificuldade em funcionar, foi com algum esforço e depois de várias tentativas, lá conseguimos pôr o motor a funcionar e o bote a navegar.

   Os meus camaradas, Silvestre, Franco e o "Russo", dividiram-se pelos dois botes acompanhados pelo pai, mãe e criança, e assim, iniciaram a grande velocidade a navegação em direcção a Santo António do Zaire.

   Estávamos na segunda semana de Dezembro, época das chuvas, no horizonte o céu estava carregado de imensas nuvens negras, o vento começava a fazer-se sentir, sinal de aproximação de um tornado, mas os riscos tinham que ser corridos, pois tinha que se salvar aquela vida. Entretanto, no rio os dois botes navegavam à vista, aproveitando a corrente muito rápida do rio Zaire, aproximando-se rapidamente do antigo Posto já desactivado da Quissanga, aí existiam duas opções: navegar pelo rio internacional ou optar pelas muílas, canais estreitos que rapidamente nos levavam à cidade. Mas, naquela situação podia tornar-se muito doloroso para a criança devido às curvas apertadas, e alguns troncos e ramagem baixa ou outro obstáculo que aparecessem, obrigando a viragens súbitas e uma condução perigosa. Decidiram assim, continuar ao longo do rio até chegar à cidade.

   Infelizmente o plano teve que ser alterado, o bote que transportava a criança, o seu motor começou a falhar e a perder velocidade. O cabo Silvestre decidiu passar a criança e a mãe para o outro bote, trocando com o marinheiro Franco. Entretanto, tinham sido apanhados pela tempestade, o bote do "Russo" seguiu, deixando de ter contacto visual com o bote do Silvestre, cujo motor acabou mesmo de silenciar e ficaram à deriva.

   A noite aproximava-se e com ela a tempestade, levando-os pela rápida corrente até ao alto mar, onde viveram uma autêntica odisseia e uma grande prova de sobrevivência. Este dramático acontecimento durou oito dias, que lhes pareceu uma eternidade ou mesmo o seu fim. Durante esses dias alimentaram-se de ervas que a corrente do rio levava para o mar, de um ou outro peixe voador que lhes saltava para o bote, de uma gaivota que conseguiram abater com o remo e beber água da chuva. Durante o dia, cobriam-se do sol com as esteiras e de uma pequena trouxa de roupa que a mãe da criança tinha deixado esquecida no bote. Assim viveram alguns dias, avistando vários barcos que passavam ao largo, mas que não os avistavam, apesar dos seus desesperados esforços. Finalmente, foram encontrados junto à costa de Ponta Negra, na República do Congo, por um barco francês de pesca de atum. O estado de saúde de ambos, era de grande debilidade, devido à falta de água, de alimentos e do sol escaldante dos trópicos ... mas, estavam vivos!

   Entretanto o bote do camarada "Russo" com os pais e a criança conseguiram chegar ao destino, salvando assim a criança, e dando o alarme da avaria e desaparecimento do outro bote.

   Imediatamente, saíram lanchas de fiscalização, uma para a foz e outra para montante do rio, mas a noite tinha chegado muito escura, chuvosa e ventosa e apesar de todo o esforço efectuado não conseguiram encontrá-los, mas as buscas continuaram, marítimas e aéreas durante mais uns dias, mas sem sucesso.

   No Posto, cancelou-se as patrulhas e, começamos a passar o rio a pente fino, na nossa margem, esperançados de encontrar alguma palamenta (remos, depósitos de gasolina bomba de enchimento) à deriva, o que nos podia indiciar o naufrágio do bote.

Resolvi então reunir com a minha equipa e começar a pesquisar a outra margem, sem conhecimento do meu comando ... verdade se diga. Sabia o perigo que corria se fossemos capturados pela tropa Zairense, mas precisávamos de ter a certeza se o rio tinha levado alguma palamenta ou objecto para a outra margem, e assim o fizemos. Durante dois dias navegamos pelas pequenas enseadas, mas mais tarde, resolvemos explorar um ou outro afluente, para contactar alguma comunidade de pescadores.

   Desembarcamos numa aldeia e entramos em contacto com pescadores locais, que nos responderam em crioulo, - "que não tinham encontrado ninguém, nem tinham conhecimento de militares portugueses naquela margem". Quando nos dirigíamos para o bote, reparamos que ao longe vinham duas viaturas Zairenses com militares, eles apearem-se, gesticulando e gritando em bom português - "pára, pára". Não esperamos mais tempo, corremos para o bote, e deslizamos rapidamente pelo afluente em direcção ao rio Zaire, manobrando junto à margem, aproveitando os contornos da mesma para em caso de disparos, não sermos atingidos. Finalmente, alcançamos a tranquilidade ao entrarmos no rio Zaire sem termos problemas, e rumamos em direcção ao nosso posto, mas, sem podermos conseguir o nosso objectivo maior - encontrar os nossos camaradas.

   Era véspera de Natal quando soubemos da notícia, - os nossos camaradas tinham sido finalmente encontrados! Foi a satisfação geral, festejámos com a alegria redobrada. Agora só restava esperar pela chegada deles. Depois de alguns dias de recuperação, reunimo-nos para ouvir os relatos dramáticos que os nossos camaradas passaram durante a sua luta pela sobrevivência.

   Dias mais tarde, chegou a informação da data da entrega do Posto da Pedra Feitiço ao (FNLA). Foi uma enorme tristeza para todos, deixar aquele oásis a elementos sem nenhuns conhecimentos sobre aquele lugar, muitos deles ainda jovens imberbes que mal falavam o português. A população reuniu-se junto ao cais, chorando com emoção pela nossa partida, muitos deles queriam vir connosco e, nesse momento tive sensação de que eles iriam sentir muito a nossa falta.

   Passados alguns dias, uma patrulha nossa, vinda de Santo António do Zaire passou pela Pedra do Feitiço, já o Posto se encontrava com o gerador avariado, sem água potável, fogões e frigoríficos avariados e a população em debandada, ia deixando aldeia.

   Infelizmente o meu mau pressentimento pelo destino da população havia acontecido, já não existia o conforto que nós lhe tínhamos deixado.

   Dias mais tarde, o Comando Naval de Santo António do Zaire, ainda enviou alguns técnicos, mas tudo estava irremediavelmente perdido

   Depois da entrega do Posto da Pedra do Feitiço ao FNLA, a companhia regressou ao quartel de fuzileiros, na cidade de Santo António do Zaire, para alguns meses mais tarde entregar a passagem da cidade para os movimentos Angolanos.

   No entanto, há que referir que neste período existiram alguns focos de confrontação e outros episódios entre os Fuzileiros e elementos do FNLA, mas devido à situação que existia na época, havia ordens expressas, em evitar ao máximo qualquer provocação.

Ficarão outros episódios para relatar ...


Seja o primeiro a ler o que há de novo!

DOIS AMIGOS 

55 ANOS DE CAMARADAGEM

José Talhadas

Fuzileiro

"Fuzileiro uma paixão"

Afonso Brandão

Fuzileiro/Mergulhador

"Mergulhar é amar o Mar"

DO MAR PARA TERRA

© 2019 Worlds Collide. Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Webnode Cookies
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora